quinta-feira, outubro 20, 2005

No País das Maravilhas

Não, não estou falando da Biblioteca. Ela infelizmente ainda vai levar muito tempo para se tornar a maravilha que tem potencial para ser.
Confesso que essas palavras levaram algum tempo para se formar na tela em branco. Não sei se é realmente verdade, mas agora começo a acreditar que seja: "É muito difícil escrever sobre o óbvio."
Mas ao que parece, é mais difícil ainda perceber o óbvio, aquele, que é invisível, mas salta aos olhos.
Encontramos na Biblioteca todos os dias, pessoas das classes mais variadas. No entanto, as pessoas pertencentes a classes economicamente superiores são um tanto quanto raras. Motivos não faltam, é claro. Além de poder comprar livros com uma facilidade relativamente maior, pessoas de maior poder aquisitivo são em geral mais raras no em qualquer parte do Brasil, como um todo.
É claro que pessoas de mais elevada cultura já perceberam a importância não apenas do ato de ler, mas da noção de respeito ao bem público, pelo compartilhamento do livro e do conhecimento.
Existem usuários que, tenho certeza, poderiam comprar sem qualquer dificuldade os livrinhos infantis que levam para seus filhos, mas preferem apresentar a eles a riqueza desse prédio.
Salvo essas raras exceções, a Biblioteca em geral é utilizada pela população de classes médias e baixas, que não teria oportunidade de acesso aos (caros) livros de outra maneira.
Nesse contexto, dada a precariedade das condições da educação no país (que já foram motivo de alguns comentários...), é claro que inúmeras pessoas não foram privilegiadas com a instrução e noções mínimas que o Estado deveria lhes garantir.
Ao contrário disso, na iniciativa privada, essas pessoas, mesmo carentes, são privilegiadas com prestações a perder de vista, com aparelhos celulares a cartão cada vez mais baratos E contas de telefone fixa cada vez mais caras. Resultado? Simples. 70% da população de baixa renda que freqüenta a biblioteca, ao fazer seu cadastro, deixa claro que possui apenas telefone celular para contato. Não tem condições de pagar a assinatura fixa, então utilizam o celular somente para receber ligações, pagando a taxa mínima a cada três meses.
Ocorre que da soma dessa imensa quantidade de pessoas munidas de telefones celulares, com o silencioso ambiente da biblioteca, resulta um problema, bastante semelhante àquele que resulta do toque de um telefone no meio de uma sessão de cinema ou teatro.
Este problema precisa ser resolvido, é claro. Assim, semana passada, chega às minhas mãos a Lei Municipal nº 6436, de 06 de outubro de 2005. Trata-se de uma lei bastante simples e concisa: É proibido o uso de telefone celular no ambiente da Biblioteca. Caso isso aconteça, aquele que usar o telefone deverá pagar uma multa de DUZENTOS REAIS.
Parei. Li e reli o papel em minhas mãos. Após a terceira tentativa, desisti. Era realmente aquilo que estava lendo, e não a alucinação inicial que acreditei ser.
Por fim, fiquei absolutamente feliz ao constatar que a nova lei é real. Feliz, pois em um país com um salário mínimo obsceno, que mal garante ao trabalhador a comida diária para sua família, pensar em uma multa de DUZENTOS Reais por atender o celular, seria um completo absurdo.
Percebi então que a realidade tornou-se outra. Nesse momento, nesse preciso momento, descobri que não venho acompanhando adequadamente aos verdadeiros noticiários e revistas (creio que estão enviando cópias modificadas para a Biblioteca).
O país está em pleno desenvolvimento, não há crise, desemprego ou subemprego. Existe dinheiro sobrando, para pagar multas de duzentos reais quando atendermos ao telefone, existe uma política educacional e cívica que ensina a todas as crianças que não devem atender o telefone na biblioteca, cinemas ou sala de aula. NÃO existem problemas econômicos para o governo se preocupar, por isso sobra tempo para criar leis com pequenas multas irrisórias.
É realmente óbvio que, tal como Alice, estamos no país das maravilhas. O povo só padece nos livros de ficção da nossa Biblioteca. Afinal, não importa o governo, se vermelho ou azul, a realidade, essa é sempre cor de rosa.

1 Comments:

Blogger Fábio Caverna said...

hahaahahaahah
hahahahaahahah
muahahahaahahah
depois dessa.. nao tem mais nada pra ser dito.
hahahaahahhahahh

quinta-feira, 20 outubro, 2005  

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